[Irony of Fate] Capítulo 7

A água quente escorria por seu corpo exalando um vapor anestesiante quando as lembranças do passado a invadiram, e como um aviso que para abandoná-las, um arrepio percorreu lhe a espinha fazendo-a se encolher inconscientemente. Depois de tanto tempo ainda recordava-se perfeitamente de tudo, de como tão intensamente amara pela primeira vez e pensava em um futuro a dois, de como apenas para se manter perto dele havia ido contra seus próprios princípios, de como apesar de sufocante era bom permanecer ao seu lado, de como ele inconscientemente havia provado para ela mesma como era fraca e vulnerável, de como ainda era imatura nos assuntos do coração e de como prometera a si mesma nunca mais se envolver com ninguém seriamente nem amar.

Ela riu desgostosa em meio a todos aqueles pensamentos em turbilhão, e depois de tanto tempo usando uma máscara de indiferença para ela própria e o mundo, deixou as lágrimas escorrerem por sua face se misturando à água quente.

Meu Deus, como ainda pode doer tanto?

Emi era uma perfeita profissional assim como prometera para si mesma ser um dia, e assim como também prometera, jamais amara outra vez. Mas as marcas sempre estariam presentes lembrando-lhe de sua mais profunda derrota, de como desistira tão fácil com medo dos próprios sentimentos. E era exatamente isso que acontecia novamente, e o medo mais uma vez tecia sua manta sobre a mesma. Tinha medo de amar novamente, de não ser correspondida, de se perder pra si própria em meio aquele caos na mente. Não, não na mente, no coração. Não podia ser tão vulnerável, não era mais uma jovenzinha, ela nunca o esqueceria, mas ele já não fazia mais parte de si nem de seu futuro – E está na hora de provar pra mim mesma que amadureci. – Mas apenas mais uma vez, choraria por aquele amor perdido, tão inocente, tão puro, tão… Irreal.

Perdera a noção do tempo ali, e quando ouviu o interfone tocando, a única coisa que pôde fazer foi enxaguar as lágrimas do rosto, se enrolar em uma toalha, e caminhar. Para o futuro. Quem sabe um novo recomeço?

Um recomeço atrasado. Meu Deus, já são 20:30! – Ela constatou pouco antes de atender a porta no relógio de parede. – Olha Diogo, eu sei que to atrasada mas me arrumo rapidinho…

Ela falava com pressa mas paralisou ao finalmente olhar para quem estava na porta.

– Você? – Emi não tinha palavras, apenas uma frase martelava em sua mente. Ele estava de volta.

– Atrapalho? – E como se o destino quisesse brincar com ela, uma voz atrás do homem revelara Diogo que havia acabado de chegar para buscá-la.

Os três se entreolhavam como se esperando quem começaria as explicações, mas os olhares de ambos os homens não demorou a recair sobre ela que se sentiu esquentar envergonhada. Foi só quando ele se pronunciou que ela se deu conta da situação. Sua voz tão intensa quanto lembrava e agora levemente mais rouca.

– Melhor vestir-se, Emi. Pode acabar pegando um resfriado.

A toalha pouco escondia de seu corpo, e ainda encontrava-se molhada. Sentiu-se ainda mais envergonhada para então correr para o quarto.

– Fiquem à vontade, eu volto logo.

Diogo entrou na casa passando pelo desconhecido que logo o seguiu fechando a porta atrás de si e se acomodando no sofá. A voz dela não demorou a voltar a dominar o lugar, um vestido preto solto com um cinto fino vermelho de fivela delicada com pedrinhas douradas e descalça, os cabelos presos em um coque frouxo com uma caneta.

– Diogo! – Ela chamou ele que se encontrava olhando a rua pelas grandes janelas. – É… esse é Ethan, um… velho amigo. – Ethan apertou a mão de Diogo que havia se aproximado. – Ethan, esse é Diogo. – Sem mais definições, apenas Diogo. Ethan levantou a sobrancelha discretamente como se a espera de mais explicações que não vieram. – Ethan é um velho amigo, que há tempos eu não via.

– Tempo até demais – Ethan salientou.

– Fico feliz por vocês – Diogo disse simples, porém seco – olha Emi, eu não sabia que você teria visita. Melhor deixar nossa saída para outro dia. – Ele piscou-lhe meio desanimado, não se sentia confortável com a presença de Ethan ali.

– Não por mim! Apenas passei rapidinho, to na cidade a trabalho. Fiquem a vontade, Emi, te ligo depois.

– Mas… – Ela tentou impedí-lo.

– Que isso Ethan? Sua presença aqui parece ser importante – Diogo interrompeu-a batendo nas costas do outro homem passando por Emi lhe dando um beijo na testa e rapidamente saindo.

– Bem, já que ele se foi, não custa ficar mais um tempo, não é? – Ethan se animou sentando-se no sofá inconsciente de que Emi ainda olhava para a porta.

As horas transcorreram em uma lentidão sem tamanho, Ethan contava animado de como estava sua vida, fazendo-a perceber a cada momento o quanto ele havia mudado. Amadurecido, com novos valores, e sua principal percepção foi que simplesmente:

Eu não o conheço mais… – Ela deixou escapar um sorriso discreto, e sua voz alta a pegou de surpresa

– Sim, eu também achei engraçado. Eles eram uns idiotas, eu simplesmente não podia deixá-los ganhar. – Um advogado renomado e que levava uma pontada de suas próprias percepções sobre o mundo para os tribunais. – Ele fez uma pausa reparando-a melhor e ficando sério dessa vez – Mas Emi, e você como anda? Espero não tê-la atrapalhado com seu namorado. Deus sabe o quanto é importante alguém ao nosso lado, isso me lembra porque eu vim aqui.

– Está tudo bem – Ela apressou se a dizer – Então um motivo lhe trouxe aqui? Pois diga logo!

– Acho que você vai ficar feliz com a notícia. Emi, eu vou me casar!

As pobres pedrinhas a cada chute voavam mais longe abandonando seu descanso pelo chão. Ele estava irritado e confuso. Irritado com ela e com seu amigo, irritado com o que sentia, irritado com a confusão em sua mente, e confuso com sua irritação.

E foi quando suspirou fundo mais uma vez que ele decidiu, iria à casa dela amanhã novamente.

E por quê? – Perguntou para si mesmo, logo voltando à irritação. – Oras! Eu não preciso dar satisfação para mim mesmo. – Chutou mais uma vez uma pedrinha parando e olhando para o céu a contemplar a lua. – Preciso beber.

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