Café Quente

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A bebida era quente demais para se tomar um generoso gole de primeira, por isso um pouco estava derramado no balcão à sua frente. Mas aquela dor, aquela sensação intensa de sentir algo, só a levou a esvaziar metade da xícara de café quente ignorando a senhora que a olhou com espanto sentado a um canto.

A calça surrada, a jaqueta a muito manchada e o cabelo em um coque que claramente não havia se dado ao trabalho para fazer, ao contrário do batom vermelho muito bem distribuído pelos generosos lábios.

Sentia-se uma merda, uma verdadeira vadia – não que isso definisse a lista de quem havia passado por sua cama. Oh! Seus lençóis andavam tão frios que sequer sabia mais o que era paixão. Amor era uma piada, certo?

Mas sim, internamente se autodenominava uma vadia, uma vaca insensível e sem coração, alguém tão impossível de se conviver que suas sensações mais intensas eram frustrações com sua conduta miserável. A droga do sorriso que sempre levava e que todos achavam se tratar de alguém feliz, o inferno da educação que usava com todos e de fato nem todos mereciam.

Por isso pegou um ônibus qualquer até o fim da tarde, entrou em uma lanchonete de beira de estrada, e já que o vinho não era quente o suficiente, que fosse café fervendo, amargo como as malditas lágrimas que surgiam vez ou outra.

Aquilo a fazia tão sublime, ali, onde apenas podia ser seca e sem coração, tanto que apreciou a música no rádio chiado.

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