CONTOS DE BAR, 1. Red Storm

  • Para iniciar o ano por aqui um conto originado do nada, mas que foi um enorme prazer escrever;
  • Os trechos são da música 60 Feet Tall, da banda The Dead Weather;
  • Ainda não sei se haverá continuação.

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Nunca gostara daquela maldita coisa, exalava um cheiro horrível que parecia seguir você por todos os lugares depois da primeira tragada, levava o corpo a um estado repugnante entorpecendo enquanto matava, mas encaixava-se tão perfeitamente por entre os dedos, e sempre parecia uma carícia suave aos lábios fossem eles ressecados ou belamente hidratados com cosméticos que tinham mais nome do que realmente ofereciam todos os prós escritos.

Talvez fosse por isso que levou o cigarro aos lábios com tanta raiva, mordendo-o como se fosse a carne de um inimigo. Percebera tarde demais o gesto que o fez cuspir a qualquer canto do chão imundo amassando a ponta no balcão ao lado do copo de whisky intocado.

É que precisava de algo prejudicial, qualquer coisa que o fizesse se sentir um bastardo, e não queria perder a consciência no processo. Precisava de um vício para após ganhar dinheiro durante todo o dia trancado em um maldito escritório sem ter nunca tempo para gastá-lo.

Arrastou-se da banqueta colocando os pés no chão sem ter certeza do destino, passou as mãos aos fios de cabelo ao ponto de arrancá-los, por fim caminhou entre os muitos bêbados que se dividiam pelo bar, era sempre o mesmo cenário, beijos vulgares demais para serem mostrados ao público, jogadores apostando se entretinham em mesas de sinuca e baralho, uma bandinha qualquer de jovens revoltados tentavam resgatar o rock’n roll no palco improvisado e alguns acompanhavam sua resistênciaberrando em meio as músicas fazendo um feio coro.

Parou levando as mãos vazias aos lábios, por força do hábito, frustrando-se em perceber o quão habituado já estava àquela maldita droga, o solo estridente de guitarra chegou ao fim e uma canção mais calma se iniciou, um blues envolvente.

Ela tomou o palco em um vestido vermelho longo de alcinhas e botas acompanhando o ritmo, totalmente deslocada em meio àquele mar escuro quais as pessoas se sentiam mais poderosas, mas a morena era visivelmente uma mulher que não precisava de nada para se provar dona do próprio destino.

You’re so cruel and shameless
But I can’t leave you be
You’re so cold and dangerous
I can’t leave you be
You got the kind of loving
I need constantly

Sua voz não tinha nada de espetacular, mas sua solidão era sentida em cada verso, suas mãos sempre eram levadas aos cabelos revoltando-os mais a cada vez que os puxava para cima e depois os deixava livres para se espalharem.

Two eyes none the wiser
In the deep
When the water gets hotter
Both hands in the deep

Ela levantava o vestido como se para não pisar em sua bainha e logo se perdia em mais algum movimento. Não olhava nada específico, mas tinha os olhos mais profundos que já se lembrava de ter visto, um castanho comum com um toque de poeta que fala de amor mas que nunca aprendera amar, eram mentirosos e manipuladores, desses que enganam à primeira vista e na segunda já se está rendido.

Mas sua presença revelava a qualquer que desse uma boa olhada, era um espírito livre, indomável, uma completa perda de tempo.

A canção chegou ao fim em um tom desafinado e sua saída fora tão repentina quanto sua chegada, caminhou para fora do palco atravessando em meio a todos e se tornando um vulto vermelho quando a porta do bar se fechou às suas costas.

I can take the trouble
Cos I’m 60 feet
Tall

Ele sorriu sem aparente motivo, tomando também o rumo da saída. Ainda encontrava-se hipnotizado em como ela transformara aquele ritmo em algo tão envolvente ao mexer sutil de seus quadris, arrancou os cigarros restantes do bolso interno de sua jaqueta abandonando-os sobre uma mesa qualquer, aquele era um mistério que estava mais do que disposto a descobrir.

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Continuo ou o mistério é mais envolvente?
Espero que tenham tido uma boa leitura, beijo meio amargo ;*

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Um pensamento sobre “CONTOS DE BAR, 1. Red Storm

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