Lágrimas Amargas

Tinha algo na temperatura quente de seu rosto que a fazia sentir-se mais humana. Mesmo tendo só a luz da lua que se infiltrava pela janela, quando se olhou no espelho, pôde rever alguém perdido, mas conhecido. Alguém fraco demais para se deixar caminhar pelo mundo, de ideais demais para sobreviver, um solitário repudiável.

Que o encaixe era de algo além, era claro pelo mundo que parecia se refugiar dentro de sua mente, apesar de tudo sorria. Mas o que ninguém sabia é que fugia de si própria, aquela maldita covarde que por vezes tomava seu corpo e banhava seu rosto,que se engasgava ao manter o silêncio.

Achava bonita a face assim avermelhada, transbordada de sentimentos qual deveria se envergonhar, se perguntava como seria belo se toda aquela vida, o sangue correndo quente sob a pele para deixá-la com tanto destaque fosse causada por alegrias.

Como podia se perder facilmente em contos supérfluos como se fosse de seu interesse, enquanto secretamente fantasiava em desbravar o mundo até o fundo, para que pudesse encontrar outra alma assim, parecida – mesquinha fantasiosa e solitária. Talvez devesse, mas era aquela maldita covardia em ter que responder à preocupação de quem deveria lhe conhecer.

Eles não amariam aquela covarde.

Aquelas lágrimas amargas, poderia bebê-las com vodka e gelo, só para embebedar-se enquanto se deixava levar, a todos aqueles objetivos vazios que só mantinha para manter se a caminhar, a todo o dinheiro que diziam ter que ganhar para realizá-los, mas só queria saber quanto custava para poder ser um amante de café meio amargo enquanto descobria poesia a cada esquina do mundo.

Sua alma só precisava se encher de estradas, vias, contos e cantos de vida.

Por isso precisava fugir, para se encontrar, se libertar sem escrúpulos. Viver! A covarde, aquela mesma fecunda em si, só queria gritar belos xingamentos àquele modelo hipócrita de felicidade, inspirar um grito de revolta de tantos mais covardes, e dominar o mundo com poesia.

Água de Chuva

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O céu estava escuro, como se estivesse enjoado de ser azul vibrante e amarelo brilhante. Prometia água tempestiva, mas parecia preguiçoso de cumprir tal ato. Da janela, tentava ver além do que a vista alcançava, ignorando o calor qual odiava. Ainda lembrava-se de em meio ao temor natural na infância, apreciar um raio cortando o céu negro em um dia que a luz se extinguiu.

Esperava o vento em fúria de uma chuva com trovões para se pendurar na janela enquanto todos se escondiam quietamente e os cabelos ricocheteavam selvagens em sua face. Para se lembrar de girar e girar na sala pequena da avó e depois escorregar pela parede rindo enquanto via o mundo girar.

Era uma alegria tão simples.

Uma gargalhada tão incontrolável.

Uma saudade de felicidade.

Mas tão poucas gotas tocaram o chão aquele dia, que água salgada quis espalhar por seu rosto, queria algo do mundo, algo que a lembrasse da vida. Que a fizesse mover-se da monotonia e ir atrás de paixões. Que a água encharcasse suas vestes enquanto ouvia alguém falar sobre o juízo perdido tão cedo.

E ela responderia que aquilo não a deixaria doente, mas a falta da emoção de se entregar aos pingos gelados… Ah, aquilo já estava a matando.

Vinho Tinto

artista: Fabian Perez

artista: Fabian Perez

Pôde perceber os lábios levemente arroxeados pelo vinho quando passou pelo maior espelho da casa. Tinha uma particularidade luxuosa que ela nunca dispensava, a bebida tinta – mesmo os mais baratos – só deveria ser apreciada em taças. Era por isso que guardava aquela única em um lugar esquecido do armário, para domingos de tédio solitário quando colocava uma música qualquer – que seria melhor apreciada em um clube – e bebia uma dose generosa do líquido.

Fechava os olhos deixando escorrer pela garganta esquentando sua face, avermelhando as bochechas e tinha um choque térmico no meio do estômago por ter seus pés descalços.

Deixava-se esvaziar em meio a sensação e movendo o corpo devagar no ritmo da música alta o suficiente para ignorar qualquer som do lado de fora. Se encontrasse um chocolate perdido em algum lugar então não poderia se sentir mais satisfeita e livre.

Corria as pontas dos dedos pelo chão gelado, deixando-se descabelar, uma gota ou duas de vinho escapavam de seus lábios e se perdiam a seus pés. Parou um minuto de frente para a janela, o andar alto o suficiente para ver longe – construções e o verde disputando, as mãos suando segurando a taça, soltou um suspiro observando a paisagem e só restavam aquelas gotas no fundo que você sempre ignora e esquece em qualquer lugar – em cima da mesa, no criado-mudo.

O vento soprou levando fios de cabelo para trás e ela soltou a taça ao chão em um rompante. Cacos espetaram a pele desnuda, como os retalhos de vida que ignorou em seu ritual. Era hora de voltar à realidade.

Mas compraria uma taça nova, amanhã quem sabe.

Eu, Emmi Cooper

Aventureira do mundo sem grana, solitária viciada em café, incrivelmente desaforada, e ainda mais dissimulada!

Apresento-lhes Emmi Cooper e suas desventuras!

Pra quem segue o blog, já deve ter percebido que esse é um nome bastante usado por aqui. Mas não, não é a mesma (porém, de certa forma, também é), aqui, ela é apenas uma mulher sem rosto, um nome para se dar aos trechos das desventuras. Pois bem, divirtam-se!

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Café Quente

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A bebida era quente demais para se tomar um generoso gole de primeira, por isso um pouco estava derramado no balcão à sua frente. Mas aquela dor, aquela sensação intensa de sentir algo, só a levou a esvaziar metade da xícara de café quente ignorando a senhora que a olhou com espanto sentado a um canto.

A calça surrada, a jaqueta a muito manchada e o cabelo em um coque que claramente não havia se dado ao trabalho para fazer, ao contrário do batom vermelho muito bem distribuído pelos generosos lábios.

Sentia-se uma merda, uma verdadeira vadia – não que isso definisse a lista de quem havia passado por sua cama. Oh! Seus lençóis andavam tão frios que sequer sabia mais o que era paixão. Amor era uma piada, certo?

Mas sim, internamente se autodenominava uma vadia, uma vaca insensível e sem coração, alguém tão impossível de se conviver que suas sensações mais intensas eram frustrações com sua conduta miserável. A droga do sorriso que sempre levava e que todos achavam se tratar de alguém feliz, o inferno da educação que usava com todos e de fato nem todos mereciam.

Por isso pegou um ônibus qualquer até o fim da tarde, entrou em uma lanchonete de beira de estrada, e já que o vinho não era quente o suficiente, que fosse café fervendo, amargo como as malditas lágrimas que surgiam vez ou outra.

Aquilo a fazia tão sublime, ali, onde apenas podia ser seca e sem coração, tanto que apreciou a música no rádio chiado.

Irritante e Dissimulada

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Seu sorriso era dissimulado, como se vivesse para provocar. Provocava a si mesma a ponto de irritar e ela parecia não querer nada mais do que se perder em meio as ritmadas batidas que escutava. Mas é que sua mente era uma consciência gritante, e ela só queria dizer para que ela se calasse, então como uma adorável criança pirracenta em seus tênis sujos de lama, ela aumentou o som de seus fones e dançou, pulando, como se mais dez mil pessoas lotassem a rua ao seu lado. E pela calçada vazia, sobre a suave garoa, ela dançou embalada pela melodia para que sua mente se calasse em êxtase.