CONTOS DE BAR, 6. Maybe Brown Brandy

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Eu tinha um amor que me amava

E era louco como meu coração aquecia só de pensar

Mais louco ainda como doía deixar passar

Rabiscou a última linha escrita com ferocidade digna de quem esfaqueia um pão, a pouca luz não deixava que olhos curiosos conseguissem ler o que derramava nas páginas de uma velha agenda, de pelo menos quatro anos atrás.

Recomeçou a linha e continuou: “Mais louco ainda como me fazia de mim mesma desapegar” – tipo uma experiência corpórea, sussurrou só para si mesma deixando um bufar soltar quando percebeu o sorriso que começava a crescer “só de pensar”.

Tomou mais um gole do que achava ser conhaque, a bebida parecia amarronzada, mas podia estar enganada devido às luzes. O gosto parecia amargo, mas como já sentia sua língua grossa, podia muito bem estar confusa quanto ao gosto também.

Abandonou o copo e pegou a caneta de volta após tirar as mechas de cabelo que se espalhavam pelo seu rosto, a mulher desgrenhada em seu jeans sem graça, camiseta e um enorme suéter pareceria deslocada se fosse um pouco mais cedo, mas a verdade é que todos estão meio desajustados àquela hora em um bar.

Eu tinha um amor que… me amava

E me derretia pensar em declarar aos quatro ventos

O amor que me enchia, me transbordava

Mas que nunca seguia”

A música country ao fundo, com uma batida que lhe lembrava os antigos filmes de velho oeste que via com o pai a fez suspirar nostálgica. O que raios havia acontecido com aquela garotinha que amava o bang bang só porque era um ritual particular de felicidade aos domingos com seu herói? Que rumo havia tomado para estar rabiscando poesia após um dia merda no trabalho, em um bar qualquer da cidade, acompanhada da bebida que apontou e sequer sabia o nome?

“Eu tinha um amor que recordava me amar

De tempos em tempos, quando seguia o padrão

Quando era a mulher que ele criou em sua mente para ser”

Virou a página escrita grosseiramente e continuou.

“Eu tinha um amor que talvez me amasse

E parecia se importar

Mesmo que só quando sua vida dava um tempo

Mesmo que a minha continuasse e se tornasse um caos

Porque eu tinha um amor…”

Sorveu o restante do líquido talvez marrom e o alto teor alcoólico queimou lhe a garganta.

Recordou-se da atual data e o fim do ano que se aproximava, tinha essa mania idiota de se iludir dizendo que deixaria o que já não mais servia para trás, mas…

“Eu tinha um amor que eu amava

Mesmo que se acorvadasse diante tamanha e insana emoção

Diante de tal torto sentimento imune a razão”

Fez um zumzum quase silencioso diante da conversação a sua volta acompanhando o ritmo do violão que sobressaía nas caixas de som.

“E ao mundo eu queria gritar que eu tinha um amor

Mas é que nunca rolava o acordo

Sempre um recomeço que se iniciava

Constantemente tendo um amor”

Rabiscou a data no final, sem certeza se era o dia certo, pediu a conta e se despediu do garçom tomando as ruas para esvaziar a mente, afinal, ela tinha um amor, e isso não iria mudar.

 

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001

Já fazia uma quinzena, um semestre ou talvez mais
Que abandonei as palavras, não as queria jamais
Foi um afastar gatuno, em escassez se apresentaram
Tirando aquele sussurro que a seu ouvido foi recitado

Sequer percebeu que ao mundo meu silêncio foi creditado
E num bailar mudo, as palavras mais uma vez voltaram
Para se libertar revoltosas ao gigante céu noturno 
Vindas do abismo profundo onde inquietas descansaram

A valsa voltou a rodar com o piano que só eu posso ouvir
E como mais ao mundo poderia gritar que as palavras queriam sair?